Poésie sur TR

ZÉNOB: A ESPUMA DAS NOITES

Rosa Alice Branco


No chão há folhas do frio a caminhar
para o inverno. À noite as cores de cada uma
embebem-se de vinho,
e do sax saem temperaturas tão altas
que o piano vem temperá-las de azul. O calor
aumenta com a hora, o suor da meia-noite
encostado às vozes, às línguas, ao silêncio
que se enrosca nelas com um copo a caminho
e um verso que pega o estômago desprevenido.
Há versos pugilistas. Cada murro que desferem
é como se estivéssemos de costas. O sax explode
nos dentes. Também ele sabe que ninguém sai vivo
do poema. Estalidos de vidro, língua cor de vinho,
espuma de cerveja roçando um verso, espuma
de letras desfeitas na rebentação. Último round,
fundo do copo, último verso. O verão indiano
ficará atrás das asas do avião até sermos todos
comidos pelo frio. E no ringue nem sinais de sangue!